Como mortes e prisões levaram MP a revelar suspeitas de extorsões e falsos flagrantes cometidos por policiais em SP

  • 02/08/2026
(Foto: Reprodução)
Vídeos mostram desespero de amigos e esposa de homem morto pela PM em Piracicaba Casos de prisões e mortes decorrentes de intervenção policial levaram o Ministério Público (MP) a investigar e revelar suspeitas de extorsões, simulação de flagrantes e fragilidades de provas durante ações de policiais militares em Piracicaba (SP). O documento foi elaborado a partir do aumento de relatos desses tipos de casos (veja abaixo). ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Piracicaba no WhatsApp Ao analisar episódios envolvendo as mortes causadas por intervenção policial, o Ministério Público afirmou que provas evidenciaram "como a combinação entre ausência de registro objetivo, demora documental e manejo indevido de vestígios produz um cenário de fragilidade probatória". LEIA TAMBÉM Policial exigiu drogas e fuzil para não prender homem No relatório, são apontadas divergências entre depoimentos dos agentes com as provas obtidas durantes investigações. "Acaba sendo um padrão estabelecido de uma demora da comunicação da ocorrência, quando se chega ao local, a cena do crime não necessariamente está preservada, a gente nunca sabe como é feita essa avaliação inicial. Em algumas ocorrências, a arma que supostamente estaria com a pessoa que foi alvejada não estava na cena do crime, estava numa viatura da polícia", disse o promotor Aluisio Maciel Neto, responsável pelo relatório. Ainda segundo o MP, documentos vinculados a prisões em flagrante revelaram padrões com chance de fragilizar provas judiciais. Entre esses padrões, destacam-se: Indícios consistentes de irregularidade, em ao menos um dos casos, na entrada da polícia na casa de alguém; A recorrência de alegações de "plantio/forjamento" de objetos como armas e drogas; A crescente dependência de prova audiovisual, como câmeras de terceiros e registros externos; A presença de imputações graves com indicação de apuração da Corregedoria. Veja abaixo detalhes dos casos: Homicídios e tentativa de homicídio Em 2008: homem foi baleado pelas costas após não parar em um bloqueio policial. A arma supostamente usada pela vítima só foi apresentada horas depois no plantão policial, e os laudos contradisseram a versão dos policiais sobre a dinâmica dos disparos. Em 2020: homem foi morto com dez tiros enquanto fugia por uma área de mata. Houve uma demora de quase três horas para a comunicação formal do fato. Exames periciais não encontraram resíduos de pólvora na vítima, que possuía limitações físicas (dedos amputados) que tornavam improvável o manuseio de uma arma; Em 2023: policiais invadiram uma residência sem mandado e efetuaram disparos sequenciais contra um homem por 14 minutos, enquanto ele suplicava por socorro. Câmeras de monitoramento próximas captaram os áudios dos disparos espaçados, desmentindo a versão de confronto imediato. A vítima sobreviveu; Em 2025: Gabriel Júnior Oliveira Alves da Silva foi morto com um tiro na cabeça após uma abordagem em que sua esposa grávida foi agredida. O relatório aponta que policiais podem ter alterado a cena do crime ao colocar pedras no local para simular uma agressão da vítima. Gabriel Junior Oliveira Alves da Silva foi morto com tiro na cabeça por policial em Piracicaba Arquivo pessoal Prisões Caso 1: o cidadão relatou ter sido abordado e coagido a entregar drogas e armas no futuro sob ameaça de ser forjado um flagrante. Mensagens de WhatsApp mostraram policiais cobrando o "compromisso" e especificando o tipo de droga desejada; Caso 2: prisão por tráfico e porte de arma com alegação de "plantio" de provas. Imagens de defesa mostraram que o celular da vítima foi tomado imediatamente na abordagem, contradizendo o relato policial de que ele teria oferecido o aparelho para negociar; Caso 3: o flagrante foi precedido por uma invasão não autorizada dos policiais à residência do acusado. A Justiça revogou a prisão preventiva devido às inconsistências entre a versão policial e as provas audiovisuais da defesa que mostravam os policiais na casa antes da abordagem na rua; Caso 4: policiais teriam invadido a casa da mãe da vítima e exigido a entrega de uma arma em sete dias. Como a arma não foi entregue, retornaram e realizaram a prisão. A Justiça relaxou a prisão por "indícios consistentes de irregularidade" e violação de domicílio. Aumento da letalidade policial De acordo com o MP, o relatório foi elaborado a partir do aumento desses episódios, principalmente em 2025. Com isso, a Promotoria avaliou a dinâmica de casos relacionados a esses contextos e elaborou recomendações para diferentes órgãos. A análise constatou que a taxa de letalidade policial em Piracicaba era menor do que a do estado em 2024, mas passou a estar acima em 2025. Especialistas ouvidos pelo g1 no início de 2026 consideraram "fora da normalidade" esse crescimento. Simultaneamente a isso, no último dia 13 de janeiro deste ano, o MP encaminhou à Corregedoria da Polícia Militar um suposto crime de extorsão e de simulação de flagrante cometido por policiais militares contra uma determinada pessoa. O caso motivou, em 11 de fevereiro, o cumprimento de dez mandados de busca e apreensão contra policiais militares. Após esse primeiro atendimento, a Promotoria recebeu informações de pelo menos outros três casos de supostas extorsões cometidas por policiais militares, em circunstâncias similares à anterior. O nome dos agentes envolvidos nas ações não foi divulgado. Recomendações O relatório do MP foi encaminhado para os seguintes órgãos: Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo Comando-Geral da Polícia Militar do Estado de São Paulo Corregedoria-Geral da Polícia Militar do Estado de São Paulo Comando de Policiamento do Interior (CPI-9); 10º Batalhão de Polícia Militar do Interior Delegacia Seccional de Polícia de Piracicaba (Polícia Civil); Polícia Técnico-Científica – Instituto de Criminalística/IML; Direção do Foro da Comarca de Piracicaba Secretaria Executiva da Promotoria de Justiça Militar. O documento indica a importância da implementação de câmeras corporais pela Polícia Militar em Piracicaba e lista uma série de outras recomendações a serem adotadas pelos órgãos, como: Registro cronológico padronizado dos horários relevantes relacionados aos casos Reforço expresso do dever de preservação do local e de não alteração do estado de coisas até a chegada da autoridade policial e da perícia; Vedação de circulação não essencial em cena sensível, com identificação mínima dos agentes que ingressaram no local antes da perícia; Rotina de preservação e requisição célere de mídias externas pela Policia Civil (câmeras particulares/comerciais/vizinhança), com registro formal da diligência; Auditoria periódica, em ocorrências selecionadas, para aferição de aderência aos protocolos. O que dizem os responsáveis Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que acompanha permanentemente os indicadores relacionados às mortes decorrentes de intervenção policial e analisa o contexto de cada ocorrência e a legalidade da atuação policial. Sobre os dados de Piracicaba, a secretaria disse que encaminhou ao Ministério Público um estudo técnico sobre o cenário das ocorrências de oposição à intervenção policial, o recrudescimento da ação criminosa na região e as medidas adotadas pela Polícia Militar para análise das condutas dos agentes. A pasta ainda ressaltou que mantém os dados em transparência ativa e responde regularmente às solicitações dos órgãos de controle, informando as circunstâncias das ocorrências, as medidas de preservação da vida adotadas, os procedimentos instaurados e as comunicações às autoridades competentes. "Além disso, a PM mantém o Sistema de Supervisão e Padronização Operacional (SISUPA), responsável pela elaboração, revisão, treinamento e supervisão dos Procedimentos Operacionais Padrão (POPs), com foco na segurança, na padronização e na qualidade da atividade policial", complementou. O g1 também pediu um posicionamento à Polícia Militar, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem. Veja mais notícias sobre a região em g1 Piracicaba

FONTE: https://g1.globo.com/sp/piracicaba-regiao/noticia/2026/08/02/como-mortes-e-prisoes-levaram-mp-a-revelar-suspeitas-de-extorsoes-e-falsos-flagrantes-cometidos-por-policiais-em-sp.ghtml


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