Polícia de SP aponta que redes online de aliciamento e exploração sexual infantil usam modelo de atuação de facções

  • 02/08/2026
(Foto: Reprodução)
Criança no celular Canva Grupos criminosos que atuam no Brasil para aliciamento digital e exploração sexual online de crianças e adolescentes têm estrutura e divisão de tarefas semelhantes ao de facções, segundo investigação do Núcleo de Operações e Articulações Digitais (Noad) da Polícia Civil de São Paulo. A informação foi revelada pelo jornal Folha de S.Paulo e confirmada pela GloboNews. O Noad existe há um ano e meio, e desde então já mapeou cerca de 1,3 mil vítimas, de acordo com a delegada-chefe do núcleo, Lisandréa Salvariego Colabuono. Quase na totalidade (96%), as vítimas são meninas, com idades entre 6 anos e 15 anos, em quase todos os estados brasileiros e no exterior. Os criminosos que aliciam crianças e adolescentes para exploração sexual, indução ao suicídio e maus tratos e sacrifício de animais de estimação. “Eles estão cada vez mais organizados, a tal ponto que as nossas investigações conseguem tipificar como organização criminosa. Porque eles são extremamente organizados, então a gente percebe desde a cooptação da vítima até a transmissão do crime, que eu digo que é a parte final, é onde a gente consegue interferir”, explica a delegada A Polícia Civil afirma que há uma divisão muito exata e detalhada de todas as funções de cada cargo. Para “ascender” de hierarquia entre os cargos, é preciso cumprir também alguns desafios, a maioria envolvendo a prática de crimes. A cooptação das vítimas começa em aplicativos, como um namoro virtual ou amizade virtual. Quando o agressor consegue ganhar a confiança da vítima, ele migra de aplicativo. “A partir do momento que ela manda a foto íntima ou vídeo íntimo, ela fica na mão desse agressor. Até chegar no ponto de enviar a foto íntima, o agressor já sabe a escola que ela estuda, já sabe a igreja que ela frequenta, onde os pais trabalham, e aí, nitidamente coagida, ameaçada, ela passa a se cortar online, ela passa a maltratar o animal da própria família, ela passa por vezes a vítima também do estupro virtual e não raras vezes o que a gente tem visto aqui, que cresceu muito o suicídio infanto-juvenil”, relatou a delegada. Entre as etapas para aliciamento, as plataformas mais usadas são o Discord, Telegram e Roblox (veja posicionamento das empresas abaixo). Para a Polícia Civil, há uma falha severa no monitoramento e na moderação dos conteúdos, que são produzidos e compartilhados por meio de servidores criados pelos criminosos. Quem comete os crimes, segundo as investigações, são adolescentes entre 11 e 17 anos, em busca de reconhecimento online e afirmação social. Desde a criação do Noad, 624 alvos foram presos ou internados, e outros 2 mil estão em monitoramento contínuo. Os agressores seguem uma divisão de tarefas: LIDER: é quem cria os servidores e promove integrantes ADMINISTRADOR: quem escolhe quem participa dos servidores MODERADOR: controla as etapas de aliciamento e segue uma "cartilha" interna sobre o modus operandi dos abusos ORADOR: é quem fala com a vítima, dá a ordem (seja para automutilação, sacrifício de animais ou suicídio) ou comete o estupro virtual Um exemplo recente de caso interceptado pela Polícia Civil de São Paulo está o de uma menina de 9 anos, que foi coagida durante uma transmissão online (live) a começar a ingerir medicamentos para tirar a própria vida. “A mãe não tinha a menor ideia do que estava acontecendo, não tinha a menor ideia que a vítima estava inicialmente num namoro virtual. E foi aí que nós conseguimos impedir que o pior acontecesse. Mas realmente os pais não têm a menor ideia de que quando eles dão um celular para o filho, estão dando a porta de entrada para os crimes mais perversos que existem hoje”, complementou Lisandréa Salvariego Colabuono. 1 a cada 3 autores de crimes relacionados a material de abuso sexual infantil é adolescente Os registros de produção, posse ou distribuição de material de abuso sexual infantil cresceram 25% no Brasil em 2025, segundo análise de registros policiais publicada no 20° Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O anuário foi divulgado no dia 23 de julho. Foi a primeira vez que o estudo avaliou esse tipo de crime, revelando a dinâmica própria de uma violência que ocorre no meio digital. Um dos dados que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi que um terço das ocorrências envolve autores adolescentes. Para Cauê Martins, coordenador de Infância e Juventude do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, os dados sobre a idade dos autores mostram uma dessas características específicas, em que tanto vítimas quanto algozes são adolescentes. "A gente percebe que é uma violência entre pares", diz o pesquisador. O estudo mostra que, em 34,2% dos casos, ou seja, em 1 a cada 3, os autores são adolescentes. Em 86,5% dos registros, havia apenas autores do sexo masculino. Casos com apenas autoras representaram 9,1%, enquanto 4,4% dos casos envolveram autoria múltipla. O relatório destaca o que pode explicar o envolvimento de adolescentes nos crimes praticados em ambientes digitais. "É um fenômeno associado à ampliação do acesso às redes sociais, plataformas de mensagens e comunidades virtuais que difundem misoginia, sexualização precoce, discursos de dominação masculina e outras formas de radicalização online", diz o texto. Agora no g1 NOTAS DE POSICIONAMENTO Telegram: O Telegram tem tolerância zero para conteúdos ou atividades que envolvam a exploração ou violência contra menores, e esse tipo de conteúdo é removido sempre que identificado. Moderadores monitoram proativamente as partes públicas da plataforma e analisam denúncias de usuários para aplicar os Termos de Serviço. Roblox: O Roblox não respondeu ao pedido da reportagem oficialmente, mas afirmou que que o Roblox adota medidas rígidas de segurança voltadas para a proteção de crianças e adolescentes na plataforma. Entre elas, há a verificação de idade obrigatória por estimativa facial, que passou a ser exigida para liberar o acesso aos recursos do chat. Os usuários são separados por faixas etárias: a categoria Kids (de 5 a 8 anos), onde o chat é totalmente desativado por padrão, e a categoria Select (de 9 a 15 anos). Crianças e adolescentes jogam apenas nas respectivas categorias, segundo a platarforma. O envio de fotos, vídeos, links externos e arquivos é totalmente proibido. O chat de texto conta com filtros inteligentes que bloqueiam a troca de dados pessoais e tentativas de migração para outras redes. Além disso, as mensagens não possuem criptografia, permitindo o monitoramento por uma equipe de segurança 24 horas por dia e a colaboração direta com autoridades policiais. Disponibilizam ainda um canal direto para denúncias. Discord: "O Discord possui uma política consolidada de Segurança para Crianças e Adolescentes que proíbe conteúdos ou condutas que os coloquem em risco ou as sexualizem, incluindo conteúdos ou comunidades que facilitem o aliciamento (grooming). Quando identificamos esse tipo de conteúdo ou comportamento na plataforma, tomamos medidas rápidas, incluindo a remoção de conteúdo e o banimento de contas, e temos reportado proativamente às autoridades brasileiras grupos e indivíduos envolvidos nesse tipo de conduta." “O Discord exige que todos os usuários tenham pelo menos 13 anos para utilizar a plataforma. O Discord não permite conteúdos ou condutas que coloquem crianças e adolescentes em risco ou os sexualizem e coopera com investigações relacionadas a esse tipo de conduta em conformidade com a legislação. Utilizamos uma combinação de ferramentas proativas e reativas para identificar e agir contra conteúdos e atividades que violem nossas Diretrizes da Comunidade. Isso inclui tecnologias avançadas, como modelos de machine learning e o PhotoDNA para identificação de imagens, além de mecanismos de denúncia disponíveis na própria plataforma para facilitar a identificação de violações. Como parte dos esforços conjuntos da indústria por meio da Tech Coalition, o Discord apoia a iniciativa Lantern, um programa pioneiro de compartilhamento de sinais entre empresas que fortalece a capacidade de detectar tentativas de exploração e abuso sexual de crianças e adolescentes na internet. O Discord também é membro fundador da ROOST, iniciativa que desenvolve ferramentas gratuitas e de código aberto para auxiliar na detecção de conteúdos nocivos.”

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/08/02/policia-de-sp-aponta-que-redes-online-de-aliciamento-e-exploracao-sexual-infantil-usam-modelo-de-atuacao-de-faccoes.ghtml


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